As princesas não usam armas Versão para impressão
Domingo, 19 Agosto 2012

 

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Se ainda não foram ver a animação Brave - Indomável (ou Valente, na versão brasileira), aconselho. Bem como previno que o melhor será guardarem a leitura destas notas, se for o caso. Em todo o caso não vou falar nem da Pixar (que produz), nem da Disney (que distribui este filme) ou de análise mais profunda (e necessária) da indústria cultural. Ficarei por umas notas.
Esta que é a décima-terceira animação produzida pela Pixar é também a primeira  cujo roteiro foi escrito (e inicialmente dirigida) por uma mulher: Brenda Chapman. Junta-se a isto o facto de, também pela primeira vez para a Pixar, a personagem principal ser uma mulher.
A princesa Merida recebeu do pai um arco, quando era pequena. Tornou-se uma talentosa arqueira, porém a sua mãe, a rainha Elinor, está sempre a lembrá-la que não é isso que se espera dela. "As princesas não usam armas!" A rainha está sempre a corrigir a postura, os modos e os atos de Merida, quer que ela se comporte "como uma princesa". A situação agrava-se quando os outros três clãs do reino respondem à chamada para apresentarem um pretendente à mão da princesa.
Merida recusa-se a cumprir a tradição. Chega a hora da princesa indicar a prova pela qual têm de passar os pretendentes dos clãs Dingwall, McGuffin e Macintosh. Naturalmente que foi o arco a prova escolhida por Merida. Após os três jovens prestarem provas, a princesa apresenta-se também ela como primogénita do seu clã e portanto apta a concorrer para conquistar a mão da princesa, a sua própria mão. A mãe não a consegue impedir e a princesa "humilha" com as suas capacidades de arqueira os jovens pretendentes.
Este e outros atos de recusa da tradição que lhe impunha casar com um dos três pretendentes gerou conflitos entre os clãs. A quebra da tradição implicaria um risco para o reino: a divisão e a guerra entre os quatro clãs.
Aqui vale a pena pararmos para notar que além da contradição de género, também as contradições entre clãs marcam lugar. Note-se que a união dos clãs e formação do reino em torno do pai de Merida, rei Fergus do Clã DunBroch, é feita pela necessidade de defesa frente a um povo invasor. Já contradição do trabalho não tem lugar no plano central do filme.
Um contributo fundamental para a virgem do enredo é o feitiço que Merida pede a um bruxa (que se afirma uma artesã) para fazer a mãe mudar de ideias. Como efeito secundário, o feitiço torna a rainha numa ursa. A elegante rainha Elinor no corpo de um animal peludo vai alternar entre os trejeitos de senhora elegante e os gestos de animal selvagem.
O urso tem um papel importante na história, que inicialmente esteve para chamar-se The Bear and the Bow (O urso e o arco), posto que o pai de Meirda tem como objetivo vingar-se do urso que lhe tirou uma das pernas.
A fuga do castelo para a floresta, à procura da bruxa e de uma solução para o feitiço vão reaproximar mãe e filha. Para matar a fome, a princesa usa o arco para apanhar peixes e faz ironia com a mãe/ursa que, contente com a pesca, se devia lembrar que "as princesas não usam armas". Para ajudar a mãe a saciar a fome de ursa, Merida ensina-a a comportar-se como uma ursa e a pescar, o lado mau disso era que a rainha tendia a esquecer-se que não era uma ursa.
De regresso ao castelo após descobrir, por interpretação de uma mensagem da bruxa, que era necessário concertar a tapeçaria rasgada por Merida quando brigou com a mãe, a mãe/ursa acaba perseguida pelo marido e por todos os clãs.
A princesa parte velozmente no seu cavalo para salvar a mãe de ser morta pelo marido e pelos clãs. Enquanto cavalga vai cosendo a tapeçaria a linhas rudes, para quebrar o feitiço. Um papel que dificilmente verão um herói-príncipe a fazer. Conciliar o cavalo e a tapeçaria pede-se a uma princesa.
A batalha entre Merida e o próprio pai (e os demais homens) para defender a mãe lembra os actos em que filhas têm de defender as mães da violência doméstica. Mas isto é um cérebro feminista a pensar, porque no caso o rei pensava estar a lutar contra o urso que teria feito a sua mulher desaparecer.
Tudo acaba em bem, como seria de esperar. Mas acaba especialmente bem porque a princesa não encontrou nenhum "quarto" príncipe nem nenhum plebeu tornado guerreiro. Não se apaixonou por ninguém, não teve de passar para a tutela de nenhum homem. Ainda quando estavam no castelo para tentar restaurar a tapeçaria e quebrar o feitiço, Merida faz um discurso indicado pela mãe/ursa com gestos em que apela à unidade do reino, baseada na amizade e entreajuda entre os clãs nas batalhas passadas, mas também diz que a tradição deve acabar e cada primogénito deve escolher com quem casar. Os outros jovens também concordam. É uma lição do feminismo, quando se libertam as mulheres, os homens também ficam mais livres.
Tinha o desejo secreto de que a princesa, por exemplo, encontrasse a mulher da sua vida. Mas isso não acontece neste tipo de produção. Ou que dois dos príncipes usassem a sua liberdade de casar com quem quisessem para se escolherem um ao outro. Mas também isso, nem hoje no século XXI é aceite na maior parte das latitudes. Só espero que o filme não seja "estragado" por uma sequela em que a "indomável" encontra o homem que a vai domar.

Bruno Góis

 

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